Música: Show me some respect ou o que eu achei do novo trabalho da Björk




Oi, amigos, como estão? Espero que estejam bem =)

Obs.: Esse post devia ter saído no lugar daquele outro com o poema Frustrationmas acabei deixando a preguiça me vencer.

Quando fiquei sabendo que a Björk lançaria um novo álbum, fiquei num estado de êxtase e estranhamento que só experimentava quando surgiam novidades sobre o Evanescence, minha banda favorita na adolescência (e que ainda amo muito). Êxtase porque, afinal, é assim que a gente fica naturalmente quando sabe que vem trabalho novo de artistas no nível dela. E estranhamento não só porque ela é do tipo que a gente nunca sabe exatamente o que esperar, mas também porque depois do projeto espetacular que foi o Biophillia, fiquei com a sensação de "e agora que parece que ela fez algo insuperável, qual será a próxima grande ideia?"

Aí surge esse disco chamado Vulnicura, que vazou pouquíssimo tempo antes do lançamento e que teve um anúncio fofo e, digamos, bem modesto por parte da cantora nas redes sociais.

Mas então soube que o tema desse novo trabalho seria coração partido (a cantora separou-se recentemente), e fiquei mais confusa ainda. Afinal, como ela trataria com originalidade desse assunto nada novo?


E mais uma vez, ela não decepcionou.



Crédito da foto para: www.kaltblut-magazine.com



O disco começa com Stone Milker, e aqui já percebemos que a tarefa de destilar o caos emocional resultante do rompimento não é coisa fácil. É como tirar leite de pedra. Vemos a confusão como causadora da dor, o sofrimento e a vontade de sanar tudo isso escancarados em versos como "Momentos de claridade são tão raros" e "Desejo sincronizar nossos sentimentos". Björk não aceita a falta de compreensão, a desordem. Ela deseja que se mostre algum respeito emocional.

E a recusa a aceitar esse estado desordenado continua em Lionsong: "Primeiro era simples/Um sentimento de cada vez/Alcançou seu ápice e então se transformou/Esses sentimentos complexos e abstratos/Eu não sei como lidar com eles". A raiva dessa situação é tanta que ela chega a dizer que "Não é sinal de maturidade/Ficar nessa complexidade".

A ferocidade só diminui (um pouco) com History of Touches, que para mim é a canção mais física, mais tocante do trabalho, por despertar nossos sentimentos mais ternos. É uma bela poesia onde a cantora nos abre o íntimo espaço da convivência com seu amor.

Espaço que foi deixado vazio, agora que ela vê que "seu escudo se foi" e "sua proteção foi roubada", como diz logo no começo de Black Lake. Essa é uma das músicas mais fortes do disco, por nos mostrar a coragem com que a cantora fala sobre sua fragilidade, com que expõe suas feridas, "Sem esperanças de recuperação em vista" e com "Dor e horrores eternos".

Mas Björk sabe que as consequências não se resumem apenas a ela. Em Family, ela se pergunta se "há algum lugar onde possa prestar suas homenagens pela morte de sua família". E pela segunda vez, pede que se mostre respeito. Ela vê que não é a única que ficou desprotegida, e questiona aonde encontrará os meios de proteger os filhos, o que restou da antiga constituição. Mas vê também que pode existir "um universo de soluções".

Em Notget, ela parece entender que a partir de agora, as duas partes da antiga união seguirão caminhos diferentes embora difíceis, ou nas palavras dela, "Nós levamos a mesma ferida/Mas temos diferentes curas/Injúrias similares/Mas remédios opostos". E deixa claro que ainda acredita no amor: "O amor nos manterá salvos da morte".




Björk e o produtor argentino Arca



E é por ainda acreditar no amor que ela nos diz em Atom Dance: "Nossos corações são recifes de coral em maré baixa/ O amor é o oceano pelo qual almejamos". A cantora sabe muito bem que "Ninguém é amante solitário" e que deve haver compreensão para que o amor cresça. E uma vez que cresce, o amor transforma, cura. Tudo unido e compreendido como numa dança de átomos.

Mouth Mantra é uma canção muito interessante e intensa. Há algum tempo, Björk precisou passar por uma cirurgia de remoção de nódulos nas cordas vocais, o que afetou sua rotina de trabalho. Aqui ela diz que "sua boca foi costurada" e que foi "banida de produzir sons", o que para um cantor é quase como ser impedido de respirar. O incômodo de não ser ouvida é latente: "Eu estava separada/Daquilo que consigo fazer/Daquilo de que sou capaz". E quando veio a recuperação, seu estado de espírito não podia ser outro: "Preciso me libertar/De hábitos viciantes/Fazer algo/Que nunca fiz antes".

Na música final, Quicksand, vemos pela terceira e última vez o pedido "Mostre respeito", e acho essa uma das melhores de todo o álbum. Nela, fica explícito que Björk acredita que se deve usar as dificuldades da vida para aprender a se fortalecer: "O vapor dessa cova/Formará uma nuvem/Para que ela viva". Ela também observa que se uma mulher desiste de lutar, há consequências não apenas para ela, mas para as outras que vêm depois: "Cada vez que você desiste/você joga o nosso futuro fora/E a minha continuidade e a de minha filha/E a das filhas dela/E a das filhas dela..."

E esse é o post de hj ^^ Mais uma vez, Björk nos presenteou com um álbum fascinante, mostrando que nunca é tarde para se falar sobre coração partido, como também há sempre a oportunidade de se curar de um. Todo mundo que já passou por isso sabe: o caminho até a recuperação é doloroso, mas pior do que isso é abandonar a chance de resgatar a felicidade.


Um beijo e até o próximo post! =)

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