Resenha: As complicadas voltas do parafuso


Oi, amigos, como estão? Espero que estejam bem =)

Pois é, pra quem diz que não tem uma gota de disposição pra fazer resenha, cá estou eu com o sexto tema da United Week (devidamente atrasado) pra falar de um clássico da literatura mundial e um dos livros mais intrigantes (e instigantes) que já tive a oportunidade de ler: The Turn of the Screw, ou A Outra Volta do Parafuso, publicado em 1898 pelo escritor estadunidense Henry James. E por favor não me perguntem quem teve a bendita ideia de incluir esse “outra” na versão BR do título pq quando peguei pra ler já tava assim.

Antes de tudo, seria legal vcs conhecerem um pouco sobre o estilo de escrita de James, pra deixar bem claro pq eu não recomendaria esse livro pra leitores “iniciantes”.

Apesar de ser rotulado como ghost story, a gente pode dizer que o trabalho dele é uma mistura de literatura fantástica e psicológica. James não tem medo de adentrar nas camadas mais profundas da alma dos seus personagens. A exposição dessas camadas gera uma aura psíquica muito forte, e quando vc tem as auras de várias pessoas se entrelaçando numa situação em comum, vc vai ver os "fantasmas" aparecerem. Isso por si só já torna a leitura densa, complexa, mas acrescente a isso a ambiguidade e a fraseologia prolixa e cheia de vírgulas e parênteses, e vc vai ver como é fácil um leitor distraído perder o fio da meada e ter que voltar no começo do parágrafo pra entender bem o que tá se passando. Por esses motivos eu consideraria as obras de Henry James como de nível de dificuldade médio, e A Outra Volta, que conta com fantasmas de verdade, não foge a essa regra.


A história é do tipo “uma narrativa dentro da outra”, e acho que a essa altura vcs não precisam se surpreender com esse pormenor, certo? O primeiro narrador é masculino e começa dizendo que estava num grupo de amigos quando o pessoal resolveu contar casos sobrenaturais pra dar uma animada, até que um dos presentes diz que tem uma história diferente de qualquer outra que eles já tenham ouvido, mas que não poderia contar nada até a noite seguinte.

Quando chega a tão aguardada noite, ele traz um diário antigo e diz que o caderno foi entregue a ele há cerca de 20 anos pela pessoa com quem o caso aconteceu: uma mulher que não tem seu nome revelado, mas que no tempo presente já havia falecido. Sem mais, ele começa a leitura.

Na época dos acontecimentos, a tal mulher era uma moça solteira, filha de um pároco, que vai trabalhar como preceptora (professora) de duas crianças numa mansão. As crianças, Flora e Miles, são sobrinhos de um cavalheiro que nunca aparece na propriedade, e que embora tenha tomado “pra si” a responsabilidade de cuidar dos pequenos, não admite ser incomodado com nada que diga respeito a eles (!!!???). Em outras palavras, não importa se as crianças fossem anjos ou demônios, a preceptora teria que se virar sozinha. Mas mesmo assim, a narradora aceitou o serviço.

Na verdade, Miles está voltando de um colégio interno, e Flora está na casa à sua espera. A preceptora não sabe muito bem o que a aguarda, mas de início as coisas até que parecem normais: as crianças são uns amores, os criados não incomodam, o lugar como um todo é tranquilo. Até que num passeio pela propriedade, ela se depara com um homem a observando desde o alto de uma torre. Ela não se lembrava de ter visto o sujeito até então, e supõe que ele seja um dos criados.

É só depois do segundo episódio com esse mesmo homem, quando ela o vê do lado de fora da casa olhando para ela por uma janela, que as coisas começam a ficar estranhas. Ela conta tudo o que acontece para a Sra. Grose, uma antiga criada que se tornou sua confidente, e a mesma reconhece o homem pela descrição como sendo o Sr. Quint, um criado da família que já tinha partido dessa pra outra melhor há um tempo. Além do Sr. Quint, uma outra aparição é notada na propriedade: uma mulher com ar ambicioso e miserável que também é identificada pela Sra. Grose: Miss Jessel, a antecessora da protagonista. Nenhum deles, de acordo com Grose, tinha boa reputação, e passavam tempo demais com as crianças.

Com o tempo, a preceptora percebe que Flora e Miles não são exatamente bem comportados como pareceu no início: na verdade eles passam a maior parte do tempo absortos, e a preceptora está convencida de que as aparições vêm por causa das crianças, com as quais se comunicam regularmente. Apesar do medo, ela está decidida a protegê-las dessa ameaça.

O que torna esse romance intrigante, além de tudo o que eu falei sobre o estilo narrativo de Henry James, é o ponto de vista extremamente limitado pelo qual a preceptora nos conta os fatos, o que não duvido que tenha sido intencional.

Primeiro, pq ela própria é, à época, uma garota simples e inexperiente, cuja primeira grande viagem é para a mansão onde tudo se desenrola. Além disso, nós só podemos fazer suposições a respeito da ligação das crianças com Quint e Jessel, bem como sobre a personalidade de cada um desses últimos, já que o pouco que a preceptora deixa entrever é contado por uma mulher idosa de pouca instrução e cheia de pudores, o que a impede de descrever com clareza a situação dos dois serviçais enquanto vivos: a única coisa concreta que ela diz é que os dois eram amantes, e somente pq foi forçada pela preceptora a falar mais do que gostaria. A preceptora nunca diz exatamente o que Miles fez para ser mandado embora do colégio, e também se limita a fazer "jogos de segredos" com as duas crianças, estendendo uma situação que sabe ser absurda por semanas, desperdiçando um tempo precioso que poderia ser usado para descobrir a verdade e contatar o guardião dos pequenos o mais rápido possível.

Várias teorias foram criadas para explicar o que de fato acontece em A Outra Volta do Parafuso. Os criados são tidos como alegorias de más características que tentam as crianças para um caminho perigoso. Também já foi dito que eles seriam abusadores, o que explicaria bem a relutância da Sra. Grose em falar abertamente sobre sua estadia na casa. A ambiguidade das principais passagens é perturbadora. Em diversos momentos, vc vai achar que está entendendo tudo, mas então James vai criar uma reviravolta que te vai deixar tão no escuro como quando vc começou a ler o livro. Por tudo isso, essa é uma obra que eu só recomendaria a leitores maduros e pessoas que são fascinadas pelo lado psicológico das narrativas.

A história de James é um parafuso, colocado no lugar de encaixe pelo autor, mas cabe aos leitores tentar decifrá-la, dando a volta no parafuso.

E esse é o penúltimo post da United Week! Espero que tenham gostado e me contem se já leram esse livro ou alguma outra coisa de Henry James, e se estariam dispostos a encarar os desafios que uma leitura densa e prolixa pode trazer!


Um beijo e até o último post do projeto! =)





Comentários

  1. Olha, nenhum professor da faculdade conseguiu me deixar atraída pela obra do James. Qual a extensão do livro? Amo obras assim é essa eu quero ler, agora. Me lembra um pouco "A sombra do vento", do Carlos Ruiz Zafón. Vc já leu?
    Um abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ler as coisas do James é um desafio pra todo mundo, Aline XD Eu mesma só consegui terminar esse livro aqui depois de vários dias, e na segunda tentativa de leitura. Mas contos dele são mais "fáceis", sabe? Esse livro é o trabalho mais complexo dele que já achei.
      Um beijo!

      Excluir

Postar um comentário

Essa é a box de comentários do A L L M I N E !

Allons-Y pra quem tem algo legal pra falar e não quer saber de disqus ou verificação de palavras! A box é do próprio Blogger, mas tá liberada pra todo mundo! Também, quem leu com atenção e tem alguma ressalva, elogio, experiência bacana pra contar e qualquer outra coisa que acrescente ao assunto do post ou tem alguma dúvida sobre o que foi falado, pois eu modero e respondo todos os comentários. Pra saber quando seu comentário foi aprovado, marque a opção “Notifique-me”!

Agora, Bye Bye Beautiful pra vc que só aparece pra jogar link e sair correndo, vem spamar, sai por aí carimbando “Amei!” e “Adorei!” mas não diz nada que acrescente ao post, é a (o) louca (o) do “Segui, segue de volta?” ou é troll e vem aqui ofender, vomitar preconceitos e perturbar os outros leitores com suas artes malignas. Volte para a sombra!

Leram essa semana